quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Amizade

.
"Amigo, pra mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos os sacrifícios."
(Guimarães Rosa)
.
Apenas amigos.
Mas a que penas?
Amigos, sem sangue do meu sangue, sem aliança de compromisso.

Para poder procurar de madrugada.
Para poder não procurar nunca mais...

...e procurar – ou encontrar – por acaso – depois de anos...
e ser lembrado.

Amigo para poder ser lembrado:
o aniversário, o segredo, o gosto.

Para poder não ser para sempre.
Para poder sempre voltar:
para o teu prazer...

Prazer, esse é o meu amigo.
.

sábado, 30 de agosto de 2008

Pacto

.
"O silêncio é tal que nem o pensamento pensa."
(Clarice Lispector)
.
.
Há entre nós uma única regra: não grite.
O silêncio é entre nós um direito.
O silêncio é para nós um dever.
.
Mas tudo que é vivo quebra a regra e grita.
E não há cadeia que silencie o grito de quem rompeu com a Lei:
o grito da criança, do louco, do bandido;
o grito que irrita, que desorganiza, que apavora...
grito que aterroriza para sempre os ouvidos dos obedientes,
até que chegue para eles o dia do grito que ninguém cala,
e rompam toda a fidelidade, com a mudez sonora da agonia que lhes couber.
.
Só quem ouve esse último grito, escuta o que uma vida inteira emudece...
e enforcado,
.
grita!
.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Tempo

.
"...desacreditar do mistério, acelerar o tempo.
Acima de tudo, somos indelicados com o tempo."
(Maria Rita Kehl)
.
Passa o menino-homem pela vida, correndo.
- Onde pensa que vai com tanta pressa? - pergunta o tempo, com uma voz tão alta que lhe interrompe.
.
Interrompido, ele responde.
Toda parada já é em si uma resposta, cheia de silêncio.
E o silêncio é a mais sincera das respostas.
.
Com sinceridade, o menino-homem silencia esse "não sei" e percebe que um "...eu nunca tinha parado para pensar..." justificaria com humildade a ignorância interrompida, filha de sua velocidade.
Ele tanto corre, que nunca sabe.
Nunca sabe onde pensa que vai...
.
Corre, não pensa.
Corre, não vai...
.
Foi a pressa do menino-homem, que fez o tempo lhe parar.
.
Ou se corre ou se vai...
Ir exige tempo e, acima de tudo, delicadeza.
.
.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O eu pintor

.
"Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori, as minhas mãos e as tuas."
(Carlos Pena Filho)
.
.

Se o mundo vai bem ou mal, sou eu que sei.
O mundo é desenho em branco - quem pinta sou eu.
Artista leva tempo - talvez a vida inteira - para aprender a lidar com tinta.
Às vezes quer pintar o sol de amarelo e borra as nuvens: o céu fica todo amarelo e já nem parece céu ou parece pôr-do-sol ou noite de ano-novo ou céu em tempo de guerra...

Mas de que importa?
O que parece o céu que eu borro com meu pincel, sou eu que sei.
Outros verão outros céus amarelos.
Se eu pinto verde o caule da flor e o sangue da mão da menina de vermelho, lembrando de colori-la com a tinta cor da pele, provo minha sabedoria, mas quando toda laranja que eu como é laranja, as violetas na minha janela, sempre violetas e a única rosa de que sou capaz é a cor de rosa, então adoeci.
É tênue, e ao mesmo tempo evidente, o que distingue o artista sábio do artista que enlouqueceu.
Conhecer os limites do meu desenho, dá liberdade ao meu pincel: se sou livre, minha laranja pode ser azul, minhas violetas cor de abóbora e as rosas vermelhas, brancas, amarelas e até lilases.
As cores do meu mundo, sou eu que sei.
.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Correspondência

.
"O traço de uma mão amiga, impressa nas páginas,
proporciona o que há de mais doce na presença:
reconhecer."
(M. Foucault)
.
.
Amor correspondido, por correspondência.
Posso ouvir, de longe, aquilo que sussurra em meu ouvido, por escrito.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Fluência

.
Não há nada que epigrafe este meu sonho.
.
.
Estava em muitos espaços ao mesmo tempo.
Eu era a água, sem forma, em um estado líquido, sem cheiro, gosto ou cor. Eu era água e matava sedes. Vinham todos beber de mim e eu me oferecia; me espalhava e não tinha limites. Eu não era mar, oceano; eu era fio de água, água que caiu por acaso no chão, que escorre, que se multiplica, que se encolhe para caber em cada pequeno vão e chegar ao mais baixo, ao mais fundo, ao fim. Água que sem saber aonde vai, segue a gravidade: suave, leve, molhada.
Desperta, eu quis saber de mim. Para onde iria eu, se todos os lugares me chamavam?
Senti o peso das minhas pernas que não aceitam bifurcações.
Senti o impulso travado dos dois braços - um direito e outro esquerdo - ligados a um tronco só. Um tronco cheio de intestinos, estômagos, fígados e rins.
Um tronco com dois pulmões e um coração.
Senti meus olhos pesados. Dois olhos estrábicos neste rosto que só se vira em uma direção.
Tudo me vinha em dois: cheiros, sons e cores; e só uma voz podia sair de mim.
Meu coração bateu pendendo à esquerda. Meus pulmões respiraram em uníssono. E a cabeça? Sonolenta, tinha que dar conta de um corpo todo direito e esquerdo. Logo ela, que era tão centrada!
.