(Ana Cristina Colla)
Pra minha Vó Josefina.
Como de imediato ele não brotasse,
diagnosticaram que o menino-semente não sabia brotar.
Embotado, ele julgou-se semente infértil,
quando infértil era aquele chão.
Então,
descascaram o menino-semente e
encontraram em seu íntimo a origem do broto que ele iria ser.
Sem delicadeza,
expuseram aquilo que nas plantas tem nome científico,
mas nos meninos chamam alma.
Semente não sabe crescer fora do tempo,
.................Semente não sabe nascer no chão de cal.
Então,
sugaram para fora de si o menino,
e o esticaram até sangrar.
O chão de cal ficou tingido de vermelho.
Desajustado, cresceu de imediato o menino,
julgando-se o culpado desta marca no tempo.
.
De nada que há em mim, desfaço.
Aproveito cada gota deste sangue, cada centímetro desta pele e cada grânulo desses ossos que insistem em sustentar-me.
Ingredientes de meu corpo, bato-os à mão a fim de que se tornem massa homogênea, mas...oh!
não sou massa de pão: sou sangue, pele e ossos - sempre.
Esse meu ser de tantas espécies já deu-me nojo.
Hoje degusto esse caldo que sou, ainda que seu aspecto me ponha medo.
De nada que há em mim, desfaço, e sinto em cada parte, o sabor daquilo que me tempera:
meu desejo.
.