sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Sobre os meus estados de ausência

"Desde minha juventude, tenho o hábito de desaparecer de tempos em tempos e de mergulhar em outros mundos para refazer-me; então, costumavam procurar-me e, depois de algum tempo, declaravam-me desaparecido e, quando eu finalmente retornava sempre achava divertido ouvir os julgamentos da dita ciência sobre a minha pessoa e os meus "estados" de ausência ou sonolência."

(Hermann Hesse)



Afastar-se de si, e dos outros,
para, ausente, sobreviver:
de Eco o destino cumprir
sem corpo,
ou sem voz,
outra infância aceitar viver.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Fragmentos daquele seu segredo


É o preço da linha tênue: 
avistar ambos os mundos, sem jamais, de fato, os tocar.
(Janeiro/2013)


Por isso é tão triste não aprender a morte e ficar vagando por aí até morrer sem saber, acendendo vela, tocando sino, fazendo escândalo de susto de uma coisa tão bonita: de uma última página de livro, de última linha de história, que qualquer neto nascido pode recomeçar a contar.
(janeiro/2010)

Talvez tudo seja espelho.
Talvez tudo que eu olho, seja reflexo meu.
(outubro/2009)

É um perigo tropeçar com vela na mão: um descuido e ateia-se fogo a tudo.
(outubro/2009)

Também nosso sangue por vezes se perde,
também as construções desabam sobre nós.
(abril/2009)

O silêncio falava o quanto era ela impotente: 
ninguém pode pedir ao silêncio que se cale.
(março/2009)

Às vezes, aquilo que me falta é o que eu tenho de mais denso.
(fevereiro/2009)

Mais feliz do que aquele que acredita sem ver é aquele que observa.
(janeiro/2009)

Justo o tempo que eu não tenho é o que me sobra para escrever.
(dezembro/2008)

Não ter religião é conviver com a insuficiência das poucas respostas que temos.
(novembro/2008)

A espera coloca uma vida possível num futuro que talvez não possa ser;
o aguardo guarda o melhor de mim para ser vivido depois.

(novembro/2008)

Tenho pavor de ser feliz.
(novembro/2008)

Conhecer os limites do meu desenho, dá liberdade ao meu pincel: se sou livre, minha laranja pode ser azul, minhas violetas cor de abóbora e as rosas vermelhas, brancas, amarelas e até lilases.
As cores do meu mundo, sou eu que sei.

(agosto/2008)

E o silêncio é a mais sincera das respostas.
(agosto/2008)

Eu gosto do silêncio que precede a fala, ou que paira depois do amor... com ele eu tenho toda a paciência que o mundo exige, que a vida e a alma pedem.
(junho/2008)

Tem uma festa-surpresa dentro de mim...
(junho/2008)

Para uma depressão falta só o mais importante: a tristeza. (...) Mas ainda dói...ainda bem!
(maio/2008)

Eu só sou na corda bamba, na dúvida, no quase, no ponto de interrogação, nas reticências, na incerteza, no calafrio...nas várias perguntas.
(maio/2008)

Para mim, é sempre mais fácil cumprir as promessas que não faço.
(fevereiro/2008)

Aos poucos encontro o chão: aquele em que eu piso, e aquele que eu sempre fui.
(outubro/2007)

O segredo que guardo, guardo dela, e ela só pode desvendar sozinha, por isso é que jamais eu o escreveria aqui.
(Primeira postagem -agosto/2007)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Nascimento

"Vivemos o luto em criação, não por clareza de sentido, mas pela necessidade de colocarmos a dor em movimento. (...) Há anos o pai faleceu. De tanta dor, deram uma festa."
(Ana Cristina Colla)




Pra minha Vó Josefina.


Muita gente nesse mundo nasce sem pai nem mãe, mas nunca ouvi falar de alguém que nascesse sem vó.
Sem vó o nascimento se faz impossível.

Óvulo fecundado, gestação completa, contração, dilatação, parto, choro, leite, tudo isso mãe garante, mas o nascimento propriamente é no colo da casa da vó que se dá.

Professor ensina a ler.
Padre ensina a rezar.
Patrão a obedecer e trabalhar.
Mãe e pai ensinam a andar, vestir, comer, falar.

Mas vó  - e vô, que sem ele não há ela -
ensinam a lição primeira -
ensinam a morrer.

Todo nascido neto de avó - que é o que todo bicho é  - aprende primeiro a morrer, e só então nasce e aprende todo aquele resto das coisas que qualquer um pode ensinar.

Por isso é tão triste não aprender a morte e ficar vagando por aí até morrer sem saber, acendendo vela, tocando sino, fazendo escândalo de susto de uma coisa tão bonita: de uma última página de livro, de última linha de história, que quaquer neto nascido pode recomeçar a contar.

Desconhecida, silenciosa, discreta, a morte aprendida  tem som e cor, sabor e cheiro: de café e não de flor, de terra e não de madeira.

Morte aprendida é nascimento, não um segundo, pra outra vida, mas o único e o primeiro.



quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Semente

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"E o mais terrível é que o apelo do mundo é tão intenso que toda dor sofrida é sofrida passivamente e aquele que sofre e para quem tudo está estranho pensa que o problema está nele e é com ele mesmo. Vai então para o psicólogo ou para o psiquiatra ao invés de ir ao meu encontro e tornar-se meu amigo."
(Juliano Garcia Pessanha)
.

Plantaram o menino-semente nesse chão de água e cal.

Como de imediato ele não brotasse,

diagnosticaram que o menino-semente não sabia brotar.

Embotado, ele julgou-se semente infértil,

quando infértil era aquele chão.

Então,

descascaram o menino-semente e
encontraram em seu íntimo a origem do broto que ele iria ser.

Sem delicadeza,

expuseram aquilo que nas plantas tem nome científico,

mas nos meninos chamam alma.

Semente não sabe crescer fora do tempo,
.................Semente não sabe nascer no chão de cal.

Então,

sugaram para fora de si o menino,
e o esticaram até sangrar.

O chão de cal ficou tingido de vermelho.

Desajustado, cresceu de imediato o menino,
julgando-se o culpado desta marca no tempo.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Desnível

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"Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo
que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?)
Dais para o mistério de uma rua cruzada
constantemente por gente,
Para uma rua inacessível
a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real,
certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas
por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo
pela estrada do nada."
(Fernando Pessoa)
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O chão tinha dois níveis, eu andava sempre a tropeçar. Carregava vela que me iluminasse o passo, mas tudo que eu conseguia era uma luz tênue que não me permitia nem enxergar com clareza, nem me acostumar à escuridão.

(Onde?
Em que sentido caminhar?)

A atmosfera de sonho enchia aquela realidade e os passos ficavam cada vez mais...
(novo tropeço!)

(É um perigo tropeçar com vela na mão: um descuido e ateia-se fogo a tudo.)

De repente, um outro no mesmo caminho, em direção oposta a minha, também a andar aos tropeções.

(Encontro com o outro neste mundo em desnível e onde pouco se vê, provoca susto.)

(Para ele, eu só posso ser assombração, vulto que caminha sob luz tênue, com dificuldade.)
(E para mim, que coisa que sou?)

Tropecei, o outro tropeçou também.
(E para mim, que coisa o outro é?)

(Talvez tudo seja espelho.
Talvez tudo que eu olho, seja reflexo meu.)
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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Desequilíbrio

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"É preciso ter um caos dentro de si, para dar à luz uma estrela dançante."
(Luigi Pirandello)
.

Passo.
Passo.
Passo.
Até que um outro caminho para à ponta de meu pé.

O que haverá nos chãos que eu nunca pisei?

Na ponta do pé... avisto mais longe.
Na ponta pé,
......................desequilibro.

.............................................Prego ambos os pés no chão.

Sem pensar, dou mais um passo.
Passo.
Pass...

O passo que eu parei no passado, levou para sempre um de meus pés.

Passo a estar em
um pé só:
desequilíbrio.
.