segunda-feira, 27 de julho de 2009

Tempero

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"Para ser grande, sê inteiro:
nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes."
(Fernando Pessoa)

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De nada que há em mim, desfaço.
Aproveito cada gota deste sangue, cada centímetro desta pele e cada grânulo desses ossos que insistem em sustentar-me.

Ingredientes de meu corpo, bato-os à mão a fim de que se tornem massa homogênea, mas...oh!
não sou massa de pão: sou sangue, pele e ossos - sempre.

Esse meu ser de tantas espécies já deu-me nojo.
Hoje degusto esse caldo que sou, ainda que seu aspecto me ponha medo.

De nada que há em mim, desfaço, e sinto em cada parte, o sabor daquilo que me tempera:
meu desejo.
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quarta-feira, 1 de julho de 2009

Autofágico

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"De corpo todo homem é uno; de alma, nunca."
(Hermann Hesse)
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Planto as mudas que recolho de mim em solo árido.
Enterrado,
não broto.
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Atravesso a tribo trazendo cesto vazio,
como fica vazio um prato raso sobre a mesa.
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Distraídos com o que os alimenta, não reparam a escassez que transborda de mim.
Recolho-me a casa, faminto e sedento.
– Não à água;
não ao pão.
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Debruçado sobre meus joelhos,
sugo o sangue que esvai
das solas feridas de meus pés.
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segunda-feira, 25 de maio de 2009

Presença

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"Eu te amo tanto como se sempre estivesse te dizendo adeus."
(Clarice Lispector)
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O último beijo, em mim reverbera,
e a ele se misturam ainda, frágeis, as ressonâncias do primeiro,
já quase inaudível.

Entre um e outro, todos os nossos carinhos vêm brincar:
crianças em festa lembram-me de aguar nossos passarinhos.

Hoje - e desde que não te vejo -
o som que emana do nosso encontro-despedida,
impõe o ritmo do meu diário partir-chegar.
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sexta-feira, 17 de abril de 2009

Corpos

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"O jovem poeta deve fazer uma espécie de violência
contra si mesmo para sair da mera idéia geral.
Não há dúvida de que isso é difícil
mas é a própria arte de viver."
(Goethe)
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Dos escombros do edifício consumido pelas chamas, retiraram os corpos.
Aliviados da dor, não reagiam ao peso de toda uma construção que desabara sobre eles.
Inertes, sustentavam escombros.
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Não foram esmagados.
Um olhar cuidadoso reconheceria ali a forma humana.
O sangue dentro deles perdia-se de caminho:
as fissuras, multiplicadas, o desviavam da rota conhecida.
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Como todos os corpos, esses também tinham seus buracos.
Preenchidos os buracos, os corpos passaram a carregar em si apenas um resto de sangue, estancado.
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Ao serem velados,
expunham-se em crua frieza,
e quando nos aproximávamos para um beijo quente em suas mãos,
sussurravam:
- Somos corpos.
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Essa era a verdade que eles continham.
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Frios ou quentes,
somos corpos.
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Velados ou expostos,
somos corpos.
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Como todos os corpos, nós também temos nossos buracos.
Abertos, nos mantém respirando,
e renovam um sangue em constante movimento.
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Também nosso sangue por vezes se perde,
também as construções desabam sobre nós.
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Mas deixemos o alívio para os corpos, dos escombros, retirados sem vida!
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Nos corpos abertos dos vivos,
o peso da construção desabada ainda dói.
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segunda-feira, 23 de março de 2009

Verborragia

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"Por honestidade ele quis lhes esclarecer
que sabia que era o sol que inchava suas palavras,
e as tornava tão esturricadas e grandes;
e que era o sol insistente,
com seu silêncio insistente,
que o fazia querer falar."
(Clarice Lispector)
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Na caverna, os assuntos fizeram-se tantos que ela se viu sem ter o que dizer.
O silêncio, então, passou a incomodá-la com desesperadora sutileza.
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Ela falava, falava, falava, mas o silêncio, imóvel, permanecia.
Ela gritou.
O silêncio, numa ironia quase que cruel, manteve-se inabalável.
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Foi então que percebeu que era o próprio silêncio que enchia sua boca com palavras.
O silêncio falava o quanto era ela impotente: ninguém pode pedir ao silêncio que se cale.
Ela também não podia.
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Compulsivamente - como quem já perdeu aquela fome que o acompanhava por horas - ela comia as palavras que o silêncio lhe impunha e - de boca cheia - umas engolia, outras lhe sobravam: vomitava.
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As palavras do silêncio, faziam lama no chão, enquanto ela, verborrágica, sucumbia.
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Buracos

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"A respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio."
(Clarice Lispector)
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O mundo se recompõe diante de meus olhos quando estes descobrem que o vazio não passa de ilusão.
A verdade - se é que algo merece este status - é que espaços vazios não existem.

Creio que os olhos de quem me lê - acostumados a enxergar o nada - reclamam agora desta ousada afirmação:

"Olha - devem estar dizendo - até tu tens teus buracos!"
Pois que os tenho não nego, mas olha-os bem: não são vazios.

Preenchidos de falta, meus buracos me compõem.

Às vezes, aquilo que me falta é o que eu tenho de mais denso.

Olha bem os buracos do mundo e encontra aquilo de que são preenchidos.
Repito, os vazios não existem!

Tudo é uma coisa só,
e respira em uníssono silêncio.
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