quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Desnível

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"Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo
que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?)
Dais para o mistério de uma rua cruzada
constantemente por gente,
Para uma rua inacessível
a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real,
certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas
por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo
pela estrada do nada."
(Fernando Pessoa)
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O chão tinha dois níveis, eu andava sempre a tropeçar. Carregava vela que me iluminasse o passo, mas tudo que eu conseguia era uma luz tênue que não me permitia nem enxergar com clareza, nem me acostumar à escuridão.

(Onde?
Em que sentido caminhar?)

A atmosfera de sonho enchia aquela realidade e os passos ficavam cada vez mais...
(novo tropeço!)

(É um perigo tropeçar com vela na mão: um descuido e ateia-se fogo a tudo.)

De repente, um outro no mesmo caminho, em direção oposta a minha, também a andar aos tropeções.

(Encontro com o outro neste mundo em desnível e onde pouco se vê, provoca susto.)

(Para ele, eu só posso ser assombração, vulto que caminha sob luz tênue, com dificuldade.)
(E para mim, que coisa que sou?)

Tropecei, o outro tropeçou também.
(E para mim, que coisa o outro é?)

(Talvez tudo seja espelho.
Talvez tudo que eu olho, seja reflexo meu.)
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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Desequilíbrio

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"É preciso ter um caos dentro de si, para dar à luz uma estrela dançante."
(Luigi Pirandello)
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Passo.
Passo.
Passo.
Até que um outro caminho para à ponta de meu pé.

O que haverá nos chãos que eu nunca pisei?

Na ponta do pé... avisto mais longe.
Na ponta pé,
......................desequilibro.

.............................................Prego ambos os pés no chão.

Sem pensar, dou mais um passo.
Passo.
Pass...

O passo que eu parei no passado, levou para sempre um de meus pés.

Passo a estar em
um pé só:
desequilíbrio.
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segunda-feira, 27 de julho de 2009

Tempero

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"Para ser grande, sê inteiro:
nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes."
(Fernando Pessoa)

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De nada que há em mim, desfaço.
Aproveito cada gota deste sangue, cada centímetro desta pele e cada grânulo desses ossos que insistem em sustentar-me.

Ingredientes de meu corpo, bato-os à mão a fim de que se tornem massa homogênea, mas...oh!
não sou massa de pão: sou sangue, pele e ossos - sempre.

Esse meu ser de tantas espécies já deu-me nojo.
Hoje degusto esse caldo que sou, ainda que seu aspecto me ponha medo.

De nada que há em mim, desfaço, e sinto em cada parte, o sabor daquilo que me tempera:
meu desejo.
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quarta-feira, 1 de julho de 2009

Autofágico

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"De corpo todo homem é uno; de alma, nunca."
(Hermann Hesse)
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Planto as mudas que recolho de mim em solo árido.
Enterrado,
não broto.
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Atravesso a tribo trazendo cesto vazio,
como fica vazio um prato raso sobre a mesa.
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Distraídos com o que os alimenta, não reparam a escassez que transborda de mim.
Recolho-me a casa, faminto e sedento.
– Não à água;
não ao pão.
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Debruçado sobre meus joelhos,
sugo o sangue que esvai
das solas feridas de meus pés.
...

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Presença

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"Eu te amo tanto como se sempre estivesse te dizendo adeus."
(Clarice Lispector)
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O último beijo, em mim reverbera,
e a ele se misturam ainda, frágeis, as ressonâncias do primeiro,
já quase inaudível.

Entre um e outro, todos os nossos carinhos vêm brincar:
crianças em festa lembram-me de aguar nossos passarinhos.

Hoje - e desde que não te vejo -
o som que emana do nosso encontro-despedida,
impõe o ritmo do meu diário partir-chegar.
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sexta-feira, 17 de abril de 2009

Corpos

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"O jovem poeta deve fazer uma espécie de violência
contra si mesmo para sair da mera idéia geral.
Não há dúvida de que isso é difícil
mas é a própria arte de viver."
(Goethe)
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Dos escombros do edifício consumido pelas chamas, retiraram os corpos.
Aliviados da dor, não reagiam ao peso de toda uma construção que desabara sobre eles.
Inertes, sustentavam escombros.
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Não foram esmagados.
Um olhar cuidadoso reconheceria ali a forma humana.
O sangue dentro deles perdia-se de caminho:
as fissuras, multiplicadas, o desviavam da rota conhecida.
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Como todos os corpos, estes também tinham seus buracos.
Preenchidos os buracos, os corpos passaram a carregar em si apenas um resto de sangue, estancado.
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Ao serem velados,
expunham-se em crua frieza,
e quando nos aproximávamos para um beijo quente em suas mãos,
sussurravam:
- Somos corpos.
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Essa era a verdade que eles continham.
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Frios ou quentes,
somos corpos.
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Velados ou expostos,
somos corpos.
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Como todos os corpos, nós também temos nossos buracos.
Abertos, nos mantém respirando,
e renovam um sangue em constante movimento.
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Também nosso sangue por vezes se perde,
também as construções desabam sobre nós.
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Mas deixemos o alívio para os corpos, dos escombros, retirados sem vida!
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Nos corpos abertos dos vivos,
o peso da construção desabada ainda dói.
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