quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Alinhavo

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"Cada manhã, ao acordarmos, em geral fracos
e apenas semiconscientes,seguramos em nossas mãos
apenas algumas franjas da tapeçaria da existência da vida,
tal como o esquecimento a teceu para nós."
(Walter Benjamin)
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Na ponta dos dedos, firma-se a agulha, com cuidado.
(com o cuidado das maõs que desenham letras)
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Da ponta da língua, solta-se a linha, com saliva.
(com a saliva da boca que pronuncia e canta)
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Com destreza e paciência, se faz a passagem:
linha molhada, no estreito espaço da agulha,
agulha firme que alinhava o sensível tecido.
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Palavra-agulha que alinhava e tece o que eu sou,
que entra e sai de mim,
me perfura,
me transpassa,
me repara e me remenda...
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Palavra-agulha que une um e outro retalho,
que compõe o meu vestido,
e me veste de tantos outros.
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Com a sempre exigida delicadeza, se faz a passagem:
me desfio,
e embebida na saliva,
penetro o estreito espaço do papel,
agulha que me leva
ao vasto espaço do tecido do outro.
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3 comentários:

"É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso..." (Clarice L.) disse...

Para ser lida ao som de...

http://www.youtube.com/watch?v=rOcXBNYXnYY&feature=related

LuLu disse...

Quel...
Quase um conto erótico esse daqui, hein...
rs...
(esses psicanalistas... rs...)
Mas com certeza essa trlha sonora q vc recomendou eh incrivel e eh como se fosse o efeito sonoplástico da peça desse texto!
Beijos...

***QUEL*** disse...

Pra variar, Lulu e suas interpretações psicanalíticas...tsc tsc tsc...
Eu nem tinha me dado conta...o que é esse inconsciente, né?
Bjs