segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Buracos

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"A respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio."
(Clarice Lispector)
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O mundo se recompõe diante de meus olhos quando estes descobrem que o vazio não passa de ilusão.
A verdade - se é que algo merece este status - é que espaços vazios não existem.

Creio que os olhos de quem me lê - acostumados a enxergar o nada - reclamam agora desta ousada afirmação:

"Olha - devem estar dizendo - até tu tens teus buracos!"
Pois que os tenho não nego, mas olha-os bem: não são vazios.

Preenchidos de falta, meus buracos me compõem.

Às vezes, aquilo que me falta é o que eu tenho de mais denso.

Olha bem os buracos do mundo e encontra aquilo de que são preenchidos.
Repito, os vazios não existem!

Tudo é uma coisa só,
e respira em uníssono silêncio.
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2 comentários:

Cidadão ® disse...

...é como avistar o mar. A deriva, nos dá na primeira sensação uma solidão fria, um, vazio do desconhecido. Mas de encanto pela imensidade de mistérios existentes ali, ve se uma vontade do mergulho. O mar, um vazio denso! Que em profundidade e intensidade nos revela maravilhas, tanto quanto perigos. Assim são os olhares...

-d.c.- disse...

qunado nasci, a meu corpo me deram molde. meus ancestrais fizeram de mim o que lhe evocava um eu: diogo. quando li "O dominó que vesti era errado./ Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me./ Quando quis tirar a máscara,/ Estava pegada à cara." esses dizeres me fizeram conhecer o que é o estranhamento e pela primeira vez soube o que era o de dentro; e a dor dessa des-coberta, não me permitiu envelhecer com esse conjunto branco-de-bolinha-preta. com o tempo, vi que também o tempo era um dominó que me vestiram; que o meu relógio era destruição e minha origem, orfandade. fora do tempo, sou ser de lugar nenhum. essa liberdade ninguém me tirou. hoje, desfeito em nada, reconstruo um edifício a que possa chamar. construo esse edifício num continente vazio. seu conteúdo é o que eu desejar. minha estrutura é erguida a cada dia sobre chão feito da matéria-nada.